Natal

Mais uma vez aqui, após longas semanas perambulando, de cidade em cidade, atrás das mesmas — e por vezes indecentes — propostas de trabalho (também como desculpa para fugir à última grande confusão; quem eu quero enganar?), de volta à velha cena. Tão ferrado quanto antes. Pela frente as mesmas ruas, os mesmos rostos, as mesmas dívidas, a mesma fome, os mesmos bares, as mesmas sarjetas, a mesma vida suja. É natal. Se me perguntassem hoje, o que queria ser quando crescesse, e eu pudesse responder consciente de toda merda que viria pela frente, sem receio algum responderia “que se foda!”. Não há felicidade nesse mundo, há, sim, a busca dela e se esse é o combustível que move a vida, prefiro abastecer o tanque com cerveja, whisque ou gás de isqueiro. Uma noite bêbada de domingo, é o que todos como eu precisam.

Cruzando a rua, tendo deixado no quarto parte das cobranças do mundo real antes mesmo do primeiro gole, tropeço em alguma coisa que me faz desviar a atenção e ser acertado, meio que de raspão, por um carro que para logo em seguida. De dentro dele (e sabe-se lá por qual raio de capricho do destino) sai um antigo colega de escola. Depois de um breve resumo das nossas vidas, emendamos para o bar da esquina, o qual seria o meu destino anterior ao inesperado (e um pouco indesejado) encontro. A conversa ia bem para ele, mas minha atenção estava longe de lá. Longe o bastante para não perceber que talvez, mesmo que por um instante, fosse aquilo que me faltasse; talvez ter escolhido evitar qualquer tipo de convívio mais próximo do que as fodas vazias e assumido a identidade de “homem gélido”, tenha me custado caro. Mas ora porra! Eu sou homem para assumir esse fardo e não ficar choramingando por aí como uma maricas do caralho. Mesmo nessa tão temível noite de natal.

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Carta Perdida 

Mãe! Ontem tive um sonho ruim. Nele  pessoas não quebravam espelhos às terças. Vi pacientes em greve dos hospitais; “deus” não era capitalista como o carteiro prega à noite, na padaria. Mãe, eu vi um mundo diferente, pude sentir que a hora havia chegado e precisava partir. Foi quando me dei conta de que já não era mais o mesmo.

Tenho medo!
Sou apenas um garoto em finda latência. O mundo parece tão diferente de antes, mas ontem, em minha última prece, lembrei de você. Seu rosto também não é como costumava ser. O que aconteceu com meu brinquedo favorito?

Por favor, não saia, não sem me dizer: palhaços sonham com balões coloridos, ou porcos podem voar?