Carta Perdida 

Mãe! Ontem tive um sonho ruim. Nele  pessoas não quebravam espelhos às terças. Vi pacientes em greve dos hospitais; “deus” não era capitalista como o carteiro prega à noite, na padaria. Mãe, eu vi um mundo diferente, pude sentir que a hora havia chegado e precisava partir. Foi quando me dei conta de que já não era mais o mesmo.

Tenho medo!
Sou apenas um garoto em finda latência. O mundo parece tão diferente de antes, mas ontem, em minha última prece, lembrei de você. Seu rosto também não é como costumava ser. O que aconteceu com meu brinquedo favorito?

Por favor, não saia, não sem me dizer: palhaços sonham com balões coloridos, ou porcos podem voar?

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Quem veio primeiro, Clarice ou a folha de papel?

Aquela folha de papel, quando amassada e arremessada, não se opõe ao descarte, se observa, reconhece seu estado. Como deve ser triste o fim das folhas de papel; tão promissoras eram as frases que lhe escreviam. Sonhava em ser romance, ou, quem sabe, um importante artigo. Mas a breve carreira de folha em branco, de folha em branco de possibilidades, cessou. Tão alva era, mas foi surrada por versos, hora rancorosos, hora tristes, não, não, apaixonados, ou melhor, alegres. Conheceu prazeres, dores, devaneios…

Eu te olho  e me inquieto; com tua pureza, com tua cara chapada, com teu vazio, mas percebo que é um vazio saciado: era uma folha em branco realizada, mas sonhava, como todos, queria ser melhor, queria mudar o mundo. Ah! Folha. Se tu soubesse. Se tu soubesse quantas já vieram antes de ti com esse anseio. Mas vê! Foi através de ti e de tuas primas que cheguei aqui. Me perdoa. Eu sofro como tu sofreu naqueles dias, na verdade você era minha melhor amiga. Eu sofrerei, um dia, como tu agora sofre. Entrego agora o produto de nosso ensaio.

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