Contos Marginais 3

          Insano é repetir os mesmos votos idiotas todo ano, toda porra de ano. Eu não gosto do natal. Não apenas pela data em si, que serve apenas para aquecer o comércio, mas pela cara cínica das pessoas sorrindo em minha direção, “vamos lá! É um dia para reviver a esperança.”, minha esperança é acordar amanhã e ver no que vai dar.
          Eu estava muito chapado àquela noite, bia e Marcus e Lorena falavam sobre alguma coisa de “grande importância”, dava pra ver nas caras do tipo de pessoas que falam coisas importantes. Saí para dar uma mijada e depois pegar outra cerveja. Só havia um banheiro no lugar; mulheres, gays, homens, todos juntos. Alguns transando ali mesmo, em cima da bancada onde outro puxava uma carreira e as putas se maquiavam. Abri um dos boxes, mas havia dois caras fudendo lá dentro, eles não se importaram tanto e a porta continuou aberta. Aquela porra estava tão cheia que tive que mijar ali mesmo, atrás da porta. Quando terminei, senti alguém meter a mão na minha bunda, “porra, quase me molho…”, “e aí?”, disse Lorena, para minha surpresa, enquanto eu arrumava minhas bolas na calça e calculava mentalmente minhas possibilidades. Ela estava afim de curtir, Marcus estava com um papo chato pra caralho desde que chegamos, daí eu saí e ela deve ter aproveitado a primeira brecha para escapar de lá. Que menina gostosinha da porra! Tinha por volta dos vinte e dois, um e setenta de altura, um corpo esguio, mas naquele vestido tudo parecia maior, olhos castanhos, rosto delicado e um nariz italiano — vocês sabem. “vamos pegar alguma coisa no bar, ou você quer ir para outro lugar?”, aquela pergunta seguida de uma piscada era meu passe, cara. Coisas boas raramente acontecem comigo, mas quando acontecem eu fodo no cú, “meu amor, estamos no lugar certo” e como não vi surpresa na expressão dela, virei-a de costas, levantei aquele vestido em meia bunda, puxei o pau para fora e fudemos. Enquanto eu metia aquele membro tão curvado quanto seu nariz, ela gemia e gemia olhando pro espelho, daí eu disse: “já sentiu um assim antes, gata?”, “nossa, que tesão!”, e foi só o que ela disse: “Ah! Assim, vai! Ahh!”. Aquela cena toda era surreal, um cara chupando o pau do outro, uma garota cheirando enquanto outro cara fodia ela por trás. Terminamos e demos o fora.
          No mezanino, Marcus estava com uma cara de cú e quando nos viu chegar não deu mais nenhuma palavra durante toda a noite. Depois de horas de enrolação, me despedi dos três, disse alguma outra coisa no ouvido de Lorena que a fez sorrir um sorriso de “volte sempre” e fui andando para fora do clube, o velho Clube ARCA, lá fora a calçada, uma briga na esquina, o dia quase amanhecendo, poucos carros na avenida, minha rua, meu apartamento, minha cama, eu, sozinho e o natal.

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Contos Marginais

​Tinha tudo para dar errado, e na minha cabeça era quase certo que daria. Uma garota entrou no bar, faltava vinte pras dez, enquanto eu já virava a segunda garrafa sobre uma sexta-feira bêbada de abril. Todos temos medo do futuro, afinal, quem quer morrer sozinho, deitado em um sofá sujo de vômito e com marcas de cigarro e latas de cerveja espalhadas pelo chão? Porra, eu não! Sinto um peso no ar e um vazio em minhas mãos, o tempo está nublado lá fora, apenas manchas claras e escuras na TV da recepção, mas quero acreditar que as coisas seguem bem. Olho para os garçons, mas seus rostos estão carregados e as garrafas vazias, penso que o meu também é como o deles, pois a insegurança ronda as mais altas ostes, mas é nos pobres onde ela melhor faz efeito. “Que calor da porra!”, penso comigo, e que noite quente era aquela, “…um covarde do caralho, George. Sabe? Estou cagando pra essa porra toda! Eu vou te falar o que é a vida”, disse Mário; eu esqueci, mas estávamos, ou melhor, Mário estava bebendo e reclamando de alguma coisa enquanto desviei a atenção para a garota, “vivemos como um palhaço alcoólatra em um circo sem futuro” e continuou, “tentando manter a lona no alto com uma vara na mão, mas enquanto levantamos de um lado, ela escorrega pelo outro.”, fiz um sinal de concordância, “o Brasil é uma cadela no cio, arrastando uma buceta gorda e suja pelas ruas de um São Paulo ou um Recife, enquanto aqueles filhos da puta do senado correm atrás dela com o pau não mão”, Mário falava e falava, mas agora eu tentava prestar atenção na discussão besta do casal da mesa ao lado, estava quase na hora: “qual foi a última mulher a suportar você nos últimos dez anos? Melhor, quando foi a última foda que você deu que não fosse com uma puta barata ou aquelas molecas metidas a intelectuais de esquerda, que juram ver significado nas bostas que você publica?”, a conversa ficava interessante e o cano da minha arma frio; naquela noite as pessoas do bar pareciam comemorar, com excessão dos garçons, o casal e eu, todos tagarelando as coisas vazias de sempre, as mesmas bostas que eu também gostava de dizer, todos como vitrines de lojas falidas, mas que se esforçavam para parecer bem. Eu pareço bem hoje. Acordei decidido; meti a mão no bolso, puxei o revólver com três balas e atirei na altura da têmpora. Que se dane Mário. Que se dane você, que se dane aquele casal, afinal, quem quer morrer sozinho, deitado em um sofá sujo de vômito e com marcas de cigarro e latas de cerveja espalhadas pelo chão? Porra, não eu! Sinto o ar leve e o sangue em minhas mãos, o tempo está nublado ao meu redor, apenas manchas claras e escuras na minha visão. Agora as coisas seguem bem. Os garçons sabiam, eles eram os únicos que sabiam. Eles sabiam.

Quem veio primeiro, Clarice ou a folha de papel?

Aquela folha de papel, quando amassada e arremessada, não se opõe ao descarte, se observa, reconhece seu estado. Como deve ser triste o fim das folhas de papel; tão promissoras eram as frases que lhe escreviam. Sonhava em ser romance, ou, quem sabe, um importante artigo. Mas a breve carreira de folha em branco, de folha em branco de possibilidades, cessou. Tão alva era, mas foi surrada por versos, hora rancorosos, hora tristes, não, não, apaixonados, ou melhor, alegres. Conheceu prazeres, dores, devaneios…

Eu te olho  e me inquieto; com tua pureza, com tua cara chapada, com teu vazio, mas percebo que é um vazio saciado: era uma folha em branco realizada, mas sonhava, como todos, queria ser melhor, queria mudar o mundo. Ah! Folha. Se tu soubesse. Se tu soubesse quantas já vieram antes de ti com esse anseio. Mas vê! Foi através de ti e de tuas primas que cheguei aqui. Me perdoa. Eu sofro como tu sofreu naqueles dias, na verdade você era minha melhor amiga. Eu sofrerei, um dia, como tu agora sofre. Entrego agora o produto de nosso ensaio.

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Eu também estou no:
http://www.medium.com/@georgebarros

A Tormenta de Gogol

E o que me diz?
Ir avante com teus planos?
Rasgar os sonhos que eu guardei?

Ficará satisfeita ao ver minha cabeça
por aí, bem vestida, como um publicano?

Fazendo o que eu não quero,
dizendo o que eu nunca disse?
Com seus próprios interesses,
ela não me ouve.
Nunca diz para onde vai.

Mas que loucura, você pode imaginar? Não, não pode.
Não faz sentido.
Não pode fazer.

Olha o mal que tu me causa, quando pede pra esquecer.

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