Natal

Mais uma vez aqui, após longas semanas perambulando, de cidade em cidade, atrás das mesmas — e por vezes indecentes — propostas de trabalho (também como desculpa para fugir à última grande confusão; quem eu quero enganar?), de volta à velha cena. Tão ferrado quanto antes. Pela frente as mesmas ruas, os mesmos rostos, as mesmas dívidas, a mesma fome, os mesmos bares, as mesmas sarjetas, a mesma vida suja. É natal. Se me perguntassem hoje, o que queria ser quando crescesse, e eu pudesse responder consciente de toda merda que viria pela frente, sem receio algum responderia “que se foda!”. Não há felicidade nesse mundo, há, sim, a busca dela e se esse é o combustível que move a vida, prefiro abastecer o tanque com cerveja, whisque ou gás de isqueiro. Uma noite bêbada de domingo, é o que todos como eu precisam.

Cruzando a rua, tendo deixado no quarto parte das cobranças do mundo real antes mesmo do primeiro gole, tropeço em alguma coisa que me faz desviar a atenção e ser acertado, meio que de raspão, por um carro que para logo em seguida. De dentro dele (e sabe-se lá por qual raio de capricho do destino) sai um antigo colega de escola. Depois de um breve resumo das nossas vidas, emendamos para o bar da esquina, o qual seria o meu destino anterior ao inesperado (e um pouco indesejado) encontro. A conversa ia bem para ele, mas minha atenção estava longe de lá. Longe o bastante para não perceber que talvez, mesmo que por um instante, fosse aquilo que me faltasse; talvez ter escolhido evitar qualquer tipo de convívio mais próximo do que as fodas vazias e assumido a identidade de “homem gélido”, tenha me custado caro. Mas ora porra! Eu sou homem para assumir esse fardo e não ficar choramingando por aí como uma maricas do caralho. Mesmo nessa tão temível noite de natal.

Anúncios

Contos Marginais

​Tinha tudo para dar errado, e na minha cabeça era quase certo que daria. Uma garota entrou no bar, faltava vinte pras dez, enquanto eu já virava a segunda garrafa sobre uma sexta-feira bêbada de abril. Todos temos medo do futuro, afinal, quem quer morrer sozinho, deitado em um sofá sujo de vômito e com marcas de cigarro e latas de cerveja espalhadas pelo chão? Porra, eu não! Sinto um peso no ar e um vazio em minhas mãos, o tempo está nublado lá fora, apenas manchas claras e escuras na TV da recepção, mas quero acreditar que as coisas seguem bem. Olho para os garçons, mas seus rostos estão carregados e as garrafas vazias, penso que o meu também é como o deles, pois a insegurança ronda as mais altas ostes, mas é nos pobres onde ela melhor faz efeito. “Que calor da porra!”, penso comigo, e que noite quente era aquela, “…um covarde do caralho, George. Sabe? Estou cagando pra essa porra toda! Eu vou te falar o que é a vida”, disse Mário; eu esqueci, mas estávamos, ou melhor, Mário estava bebendo e reclamando de alguma coisa enquanto desviei a atenção para a garota, “vivemos como um palhaço alcoólatra em um circo sem futuro” e continuou, “tentando manter a lona no alto com uma vara na mão, mas enquanto levantamos de um lado, ela escorrega pelo outro.”, fiz um sinal de concordância, “o Brasil é uma cadela no cio, arrastando uma buceta gorda e suja pelas ruas de um São Paulo ou um Recife, enquanto aqueles filhos da puta do senado correm atrás dela com o pau não mão”, Mário falava e falava, mas agora eu tentava prestar atenção na discussão besta do casal da mesa ao lado, estava quase na hora: “qual foi a última mulher a suportar você nos últimos dez anos? Melhor, quando foi a última foda que você deu que não fosse com uma puta barata ou aquelas molecas metidas a intelectuais de esquerda, que juram ver significado nas bostas que você publica?”, a conversa ficava interessante e o cano da minha arma frio; naquela noite as pessoas do bar pareciam comemorar, com excessão dos garçons, o casal e eu, todos tagarelando as coisas vazias de sempre, as mesmas bostas que eu também gostava de dizer, todos como vitrines de lojas falidas, mas que se esforçavam para parecer bem. Eu pareço bem hoje. Acordei decidido; meti a mão no bolso, puxei o revólver com três balas e atirei na altura da têmpora. Que se dane Mário. Que se dane você, que se dane aquele casal, afinal, quem quer morrer sozinho, deitado em um sofá sujo de vômito e com marcas de cigarro e latas de cerveja espalhadas pelo chão? Porra, não eu! Sinto o ar leve e o sangue em minhas mãos, o tempo está nublado ao meu redor, apenas manchas claras e escuras na minha visão. Agora as coisas seguem bem. Os garçons sabiam, eles eram os únicos que sabiam. Eles sabiam.