DesInfraestrutura

Deparei-me com um absurdo,
uma coisa que me fez pensar,
se no embaraço a mente engana,
ou por cansaço devanear;
que homem, em sã consciência,
e de bom grado, decide,
de um buraco dispôr-se a cuidar?

Num plano “bi” (de asfalto) fez sua casa
no meio da rua achou lugar.
De noite ganha um abrigo,
de dia o sol vem lhe secar;
que homem, em sã consciência,
e de bom grado, decide,
de um buraco dispôr-se a cuidar?

Não é de mestre Gogol essa história,
ele jamais iria sonhar
que em um canto do mundo pudesse,
coisa dessa se desdobrar:
que homem, em sã consciência,
e de bom grado, decide,
de um buraco dispôr-se a cuidar?

Essa história aconteceu, eu vi!
a ninguém poderia passar,
em uma rua, perto de casa,
onde prefeito, não vejo andar;
cresce mais um, de muitos, buracos,
que o descaso alimenta
e aquele homem dispõe-se a cuidar.

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Quem veio primeiro, Clarice ou a folha de papel?

Aquela folha de papel, quando amassada e arremessada, não se opõe ao descarte, se observa, reconhece seu estado. Como deve ser triste o fim das folhas de papel; tão promissoras eram as frases que lhe escreviam. Sonhava em ser romance, ou, quem sabe, um importante artigo. Mas a breve carreira de folha em branco, de folha em branco de possibilidades, cessou. Tão alva era, mas foi surrada por versos, hora rancorosos, hora tristes, não, não, apaixonados, ou melhor, alegres. Conheceu prazeres, dores, devaneios…

Eu te olho  e me inquieto; com tua pureza, com tua cara chapada, com teu vazio, mas percebo que é um vazio saciado: era uma folha em branco realizada, mas sonhava, como todos, queria ser melhor, queria mudar o mundo. Ah! Folha. Se tu soubesse. Se tu soubesse quantas já vieram antes de ti com esse anseio. Mas vê! Foi através de ti e de tuas primas que cheguei aqui. Me perdoa. Eu sofro como tu sofreu naqueles dias, na verdade você era minha melhor amiga. Eu sofrerei, um dia, como tu agora sofre. Entrego agora o produto de nosso ensaio.

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Que absurdo! Ele escreve poemas de amor.

Se aquela letra fosse a tua,
de tão triste antes,
estaria feliz.
Mas, dos outros,
não me vêm notícias tuas.
Meus recados,
rabiscados na calçada,
marcas frágeis,
escritos em giz.

Comprei um cavalo de galope anacrônico;
ele é da cor que tu queria
(ou querias),
pra parecer que sou romântico,
mas, porra, isso não é poema de amor
e eu não preciso de cavalos pra lembrar de ti.

Arrombei todas as métricas,
você viu?
Espalhadas na minha lousa,
dilatadas em meu blog,
escorrendo na minha tela,
desprendendo de meu note.

Me preencho como posso:
Cheiro à música,
fumo à arte.
Hoje é meu o que foi nosso.

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Registros de Helena (ou Ouvindo a Voz do Silêncio)

…e, então, o que dizer
de nosso próprio corpo?
Que, nem sob o desejo,
nós o governamos.

Não dizemos a este “faz!”
e ele faz de bom grado,
Mas se o faz, faz,
porque é obrigado.

Não dizemos a um fígado
“te regenera!”,
ou a um coração “bate!”,
pois nossa intenção
se faz confusa.

Mas há um jeito;
um artifício;
um modo de fazê-lo.
Ainda restam noventa
em sua cabeça.

Está tudo lá,
bem guardado,
todas as coisas,
entre as três torres:
a base no topo do saber.

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Anoiteceu

Vou juntar o que sobrou:
fotos,
frases,
tua voz no gravador.
levarei no bolso da camisa
pra decidir o que fazer depois.

Quando você chegou parecia noite, triste,
mas era manhã
e agora anoiteceu,
de novo, só, sem você.

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A Tormenta de Gogol

E o que me diz?
Ir avante com teus planos?
Rasgar os sonhos que eu guardei?

Ficará satisfeita ao ver minha cabeça
por aí, bem vestida, como um publicano?

Fazendo o que eu não quero,
dizendo o que eu nunca disse?
Com seus próprios interesses,
ela não me ouve.
Nunca diz para onde vai.

Mas que loucura, você pode imaginar? Não, não pode.
Não faz sentido.
Não pode fazer.

Olha o mal que tu me causa, quando pede pra esquecer.

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