Capítulo 2

Depois de mais uma noite mal dormida, levantei-me com uma sensação de vazio. Como se colocassem uma carga em minhas costas para, subitamente, derrubarem-na na manhã seguinte. Abrindo espaço para um tremendo e indescritível vazio. Resumindo minha vida à um perpetuo dilema. Uma alternância entre peso e leveza, onde: hora sofria com a dor, o peso, a amargura; hora com o vazio, a ausência de motivos que justificassem qualquer sofrimento. Estas coisas sempre permeavam minha mente. Uma profusão confusa e avassaladora de ideias, medos, desvarios e vazios. Mas agora era manhã. Era o momento de existir, de carregar o peso/vazio da minha própria existência.

Desci até o hall de entrada do hotel. Chamei um taxi e fui para o trabalho.

O pessoal do meu setor ainda estava na copa, tomando café. Nunca gostei de me enturmar. Não conseguia me socializar bem, tampouco me interessava por isso. Fiz um aceno com a cabeça, passei por eles e fui até a minha mesa. Talvez fosse por eu ser freelance e eles funcionários efetivos. Não me importava, jamais me sentiria bem ali, não era meu lugar. Só queria fazer a bosta do meu trabalho, concluir o máximo de projetos durante a semana e esperar o dia do pagamento. Não conseguia entender essa superestima por contato humano, compreendo que às vezes era necessário. Uma conversa, um passeio, uma visita casual, mas não vejo nada melhor do que alguns momentos de solidão, um tempo para ficar em paz (ou guerra) consigo.

Tirei meu laptop da mochila, pluguei o carregador na tomada e fui buscar um café. Gostava de tomar café enquanto trabalhava, embora sentisse muita azia após tomá-lo. Talvez estivesse com gastrite. Um amigo, com quem havia dividido um apartamento uma vez, disse-me que o que eu sentia era sintoma de refluxo, e que eu não deveria comer perto da hora de dormir, nem beber refrigerantes, café, ou comer nada que fosse frito. Mas, depois de passar a noite praticamente em claro, era fácil esquecer-se desse detalhe. O que eu queria mesmo era tomar uma grande e quente caneca de café.

Bebi um pouco de café, voltei até minha mesa e deixei a caneca ao lado do computador; cliquei no último projeto em que trabalhava e esperei o soft carregar. Estava atrasado, precisava correr se quisesse fechar o projeto naquela mesma semana. Lembrei que havia gasto a maior parte do dinheiro pagando as diárias do hotel. Precisava de mais dinheiro e sabia que deveria arrumar um lugar mais barato para ficar.

O escritório onde trabalhava era tranquilo. Diferente do meu último serviço, em que tinha que gritar com alguém para receber meu pagamento, aqui recebíamos em dia. O ambiente era bem iluminado, limpo, com paredes de cores claras. Cada um de nós tinha sua própria mesa, e cada mesa ficava de frente, uma para outra. Éramos quatro no setor de projetos: Eduardo, Yuri, Anne e eu. A mesa da Anne ficava em frente à minha. Um espetáculo de mulher. Às vezes, sem que percebesse, passava um quarto do turno da manhã alternando a vista entre ela e o meu projeto. Havia uma divisória de vidro atrás de sua mesa, e era possível ver sua silhueta enquanto trabalhava em algum projeto novo, sempre linda. Eduardo ficava na mesa ao lado da minha, e Yuri, ao lado da mesa da Anne. Os dois pareciam ter alguma intimidade. Imaginava isso por eles ficarem trocando mensagens privadas no chat interno do escritório e sorrindo enquanto se olhavam. Isso me incomodava um pouco. Ela sorria para mim, às vezes, tínhamos algumas coisas em comum. Gostávamos das mesmas bandas, liamos os mesmos autores, frequentávamos os mesmos lugares. Acreditava que alguma coisa poderia dar certo entre nós, mas lá estava a droga do sorrisinho do Yuri e a droga do celular vibrando dentro da minha mochila, com alguma mensagem da minha ex-namorada.

Bianca também era bonita, mas não se comparava à beleza da Anne. Gostava de ficar com ela, realmente a amava, mas as brigas não paravam de aumentar. Certo dia ela disse que não queria mais me ver. O motivo que ela alegava era que eu não lhe dava atenção, que não gostava de sair com os seus amigos, etc. A verdade era que ela estava me traindo e não desconfiava que eu sabia. Certo dia ela me pediu que entrasse em seu e-mail e baixasse um anexo que havia chegado. Dentro da pasta de fotos havia centenas de fotos suas, nua com outro cara. A estúpida deixou que seu celular fizesse backup dos dados para o armazenamento na nuvem. Fiquei puto da vida, queria esganá-la, mas preferi ficar calado. Baixei o anexo do seu e-mail, salvei o arquivo em seu computador e fechei a pasta. Uma semana depois, avisei que estava indo embora. Ela me perguntou o motivo, disse-lhe que os fatos eram fatos, e que não sentia necessidade, nenhuma, de verbalizá-los para ela. Mesmo assim contei-lhe que havia encontrado as fotos em seu e-mail e que iria, simplesmente, arrumar minhas coisas e ir embora. Foi exatamente o que fiz. No entanto, estava agora com o celular na mão, e uma notificação com seu nome no visor.

Deletei.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s