Capítulo 1

Levanto-me uma, duas vezes. São três da manhã e não consigo dormir. Sentado na cama, me apoio com os cotovelos sobre os joelhos. Nenhum pensamento novo. Nada. Apenas as mesmas lembranças amargas do dia anterior, da semana anterior. Merda! O quanto é possível remoer o passado antes que se enlouqueça completamente? Ainda não tenho essa resposta. Aliás, ainda não tenho resposta para muitas outras coisas.

Semana passada brigamos. Sim, brigamos. Ao menos eu briguei. Fui para um hotel qualquer. Um quarto vagabundo, com paredes de cores mórbidas, e cheiro de mofo e cigarro. Tinha uma TV, é, tinha, e um banheiro. Tudo como tinha que ser, a não ser pelo ralo. Droga de ralo: quanto mais tentava não pensar em nada, lá estava ele, exalando aquele cheiro característico; me fazendo lembrar das bostas que havia falado e ouvido. Mas não era o primeiro ralo que tivera de enfrentar. Houveram outros antes dele, e também não seria o último.

 Voltei até a recepção.

– Boa tarde. – disse.

– Boa tarde, senhor! O que deseja? – respondeu a moça.

– O 320 é o melhor quarto que vocês têm disponível?

– Bem, é o único quarto de solteiro disponível no momento. Há algum problema com ele, senhor?

As pessoas sempre me soavam falsas quando tentavam ser educadas demais.

– Não. – respondi. – O problema sou eu. Obrigado.

 Sai da recepção e voltei ao elevador.

Enquanto subia, tentava imaginar o motivo para um hotel tão pequeno ter um elevador tão grande. Calculei que deveria ter capacidade para oito pessoas ali dentro.

A porta se abriu. Era o meu andar.

Segui pelo corredor até meu quarto. 320, dizia a placa praticamente ilegível pregada na porta. E, enquanto tentava abri-la, percebi o quanto sentia incomodo pela combinação daqueles dois primeiros números. Lembrava-me um filme que havia sido lançado em 2002: Número 23, era o título. Bem… é um filme que narra a obsessão de um cara pelo número 23, e que se torna paranoico por conta disso. Mas até o momento eu estava bem. É. Tudo bem, eu imaginava.

Ao entrar, deixei o cartão magnético no sensor, deitei-me na cama e apalpei a cabeceira à procura do controle remoto da TV. Troquei de canal, procurando uma merda qualquer para assistir. Aqueles filhos da puta. Não exibia nada além da programação local. Nessas horas papel e caneta sempre me faziam falta. Coloquei o celular para recarregar, deixei a TV ligada e permaneci deitado, tentando pensar em alguma coisa útil. Mas, pensar parecia ser a pior coisa que se podia fazer naquele momento.

O relógio marcava 22:00h.

Baixei um pouco o volume da TV e tentei me concentrar no barulho que vinha do quarto ao lado. Na verdade, não dava para ter certeza de onde saía, tampouco imaginar o que poderia ser: talvez alguém tentando suicídio, ou agonizando, quem sabe? Também poderia ser só um gato no cio do lado de fora da minha janela. Não dei muita importância. Afinal, se fosse alguma coisa importante estaria no noticiário local da manhã seguinte.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s