Resenha dos Livros de Contos do Rubem Fonseca Parte 1- Amálgama, Feliz Ano Novo, Buraco Na Parede, O Cobrador #nitroblog

Aproveitando o calorzão de Janeiro, e dando uma pausa nas minhas leituras de fantasia contemporânea, resolvi embarcar no que chamei de Festival Doidimais de Contos do Rubem Fonseca, um plano auto-imposto onde leria o maior número possível dos livros de contos do Rubão. Como os livros são mais curtos do que os tijolões de fantasia que costumo ler, reuni minhas impressões dos livros em dois posts.

Se você se interessar pelos livros mas não tem tempo para ler todos, leia Feliz Ano Novo e O Cobrador que já dá para ter uma idéia de quanto o Rubão é fodásico!

Nesse primeiro post coloco o que achei do livros Amálgama (2013), Feliz Ano Novo 1975), Buraco Na Parede (1995), O Cobrador (1979).

o cobrador

Antes uma introdução para quem não conhece um dos melhores autores brasileiros vivos (na minha opinião, é claro).

Rubem Fonseca (Rubão para os mais íntimos) é mineiro de Juiz de…

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A assembléia

Era uma noite de inverno quando Joãozinho e seus pais reuniram-se na sala de estar. Joãozinho era um garoto estudioso e muito curioso. Tinha dez anos de idade e o que mais gostava de fazer era ler, embora isso não fosse comum entre outros garotos da sua idade. Os pais de Joãozinho assistiam TV enquanto ele lia uma das revistas que sua mãe havia deixado na mesinha de centro. Ao ler uma matéria sobre política, encontrou uma palavra que não sabia o significado…

– Pai! O que é uma Assembléia?

Seu pai pensou, pensou… Estavam assistindo algum programa de domingo. Não queria decepcionar o filho, mas a verdade era que não sabia. “Diga logo para ele que você não sabe. As vídeo-cassetadas vão começar.” Disse a mãe do menino, mas o velho era muito teimoso e não queria dar o braço a torcer. Lembrou que no mesmo dia, Joãozinho havia perguntado se poderia ter um cachorro. Era uma boa desculpa para escapar da situação. “Acho melhor conversarmos sobre o seu cachorro.” Joãozinho ficou alegre, mas sua mãe percebeu qual era a intenção do marido. Dirigiram-se para a cozinha. Sentaram-se em volta da mesa e, então, fizeram uma assembléia para discutir o assunto do cachorro.

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Mais um dia normal naquela agência bancária. Eu estava na metade de uma fila que findava em um balcão, onde eram entregues fichas com números. Estes números seriam chamados em ordem crescente e, então, seríamos atendidos por uma velha, tão infeliz quanto os que esperavam. Ficha 73 entregue, ficha 2 sendo chamado ao caixa; e assim seguíamos…

– Bom dia, meus queridos irmãos! – disse um velho que acabara de entrar – Como sou grato ao meu Senhor por este dia abençoado; por ter permitido que cada pessoa linda, que se encontra aqui presente, acordasse com vida – não conseguia imaginar como era possível alguém acordar morto – e com saúde. Há um ano fui assaltado, roubaram todo meu dinheiro e me deram uma pancada, que, tragicamente, atingiu meu olho esquerdo, me deixando cego. Gostaria de perdir-lhes uma ajuda de qualquer valor, pois, preciso comprar um colírio muito caro, para evitar ficar cego do outro olho. Desde já agradeço à Deus por suas vidas, e que o Senhor venha abençoa-los.

Todos contribuíram, eu mesmo teria contribuído se não estivesse quase cochilando. O velho seguia com seu parlatório, quando o vigilante se aproximou e pediu que ele se retirasse. Mesmo assim ele estava satisfeito, as pessoas que contribuíram também estavam. Alguns minutos depois, as mesmas pessoas que estavam na agência, inclusive eu, puderam avistar, em um bar próximo, o velho miserável entornar uma garrafa de cachaça, comprada com o dinheiro doado. Bem, fiquei feliz, ao menos não havia lhe dado dinheiro para comprar o tira gosto.

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Capítulo 2

Depois de mais uma noite mal dormida, levantei-me com uma sensação de vazio. Como se colocassem uma carga em minhas costas para, subitamente, derrubarem-na na manhã seguinte. Abrindo espaço para um tremendo e indescritível vazio. Resumindo minha vida à um perpetuo dilema. Uma alternância entre peso e leveza, onde: hora sofria com a dor, o peso, a amargura; hora com o vazio, a ausência de motivos que justificassem qualquer sofrimento. Estas coisas sempre permeavam minha mente. Uma profusão confusa e avassaladora de ideias, medos, desvarios e vazios. Mas agora era manhã. Era o momento de existir, de carregar o peso/vazio da minha própria existência.

Desci até o hall de entrada do hotel. Chamei um taxi e fui para o trabalho.

O pessoal do meu setor ainda estava na copa, tomando café. Nunca gostei de me enturmar. Não conseguia me socializar bem, tampouco me interessava por isso. Fiz um aceno com a cabeça, passei por eles e fui até a minha mesa. Talvez fosse por eu ser freelance e eles funcionários efetivos. Não me importava, jamais me sentiria bem ali, não era meu lugar. Só queria fazer a bosta do meu trabalho, concluir o máximo de projetos durante a semana e esperar o dia do pagamento. Não conseguia entender essa superestima por contato humano, compreendo que às vezes era necessário. Uma conversa, um passeio, uma visita casual, mas não vejo nada melhor do que alguns momentos de solidão, um tempo para ficar em paz (ou guerra) consigo.

Tirei meu laptop da mochila, pluguei o carregador na tomada e fui buscar um café. Gostava de tomar café enquanto trabalhava, embora sentisse muita azia após tomá-lo. Talvez estivesse com gastrite. Um amigo, com quem havia dividido um apartamento uma vez, disse-me que o que eu sentia era sintoma de refluxo, e que eu não deveria comer perto da hora de dormir, nem beber refrigerantes, café, ou comer nada que fosse frito. Mas, depois de passar a noite praticamente em claro, era fácil esquecer-se desse detalhe. O que eu queria mesmo era tomar uma grande e quente caneca de café.

Bebi um pouco de café, voltei até minha mesa e deixei a caneca ao lado do computador; cliquei no último projeto em que trabalhava e esperei o soft carregar. Estava atrasado, precisava correr se quisesse fechar o projeto naquela mesma semana. Lembrei que havia gasto a maior parte do dinheiro pagando as diárias do hotel. Precisava de mais dinheiro e sabia que deveria arrumar um lugar mais barato para ficar.

O escritório onde trabalhava era tranquilo. Diferente do meu último serviço, em que tinha que gritar com alguém para receber meu pagamento, aqui recebíamos em dia. O ambiente era bem iluminado, limpo, com paredes de cores claras. Cada um de nós tinha sua própria mesa, e cada mesa ficava de frente, uma para outra. Éramos quatro no setor de projetos: Eduardo, Yuri, Anne e eu. A mesa da Anne ficava em frente à minha. Um espetáculo de mulher. Às vezes, sem que percebesse, passava um quarto do turno da manhã alternando a vista entre ela e o meu projeto. Havia uma divisória de vidro atrás de sua mesa, e era possível ver sua silhueta enquanto trabalhava em algum projeto novo, sempre linda. Eduardo ficava na mesa ao lado da minha, e Yuri, ao lado da mesa da Anne. Os dois pareciam ter alguma intimidade. Imaginava isso por eles ficarem trocando mensagens privadas no chat interno do escritório e sorrindo enquanto se olhavam. Isso me incomodava um pouco. Ela sorria para mim, às vezes, tínhamos algumas coisas em comum. Gostávamos das mesmas bandas, liamos os mesmos autores, frequentávamos os mesmos lugares. Acreditava que alguma coisa poderia dar certo entre nós, mas lá estava a droga do sorrisinho do Yuri e a droga do celular vibrando dentro da minha mochila, com alguma mensagem da minha ex-namorada.

Bianca também era bonita, mas não se comparava à beleza da Anne. Gostava de ficar com ela, realmente a amava, mas as brigas não paravam de aumentar. Certo dia ela disse que não queria mais me ver. O motivo que ela alegava era que eu não lhe dava atenção, que não gostava de sair com os seus amigos, etc. A verdade era que ela estava me traindo e não desconfiava que eu sabia. Certo dia ela me pediu que entrasse em seu e-mail e baixasse um anexo que havia chegado. Dentro da pasta de fotos havia centenas de fotos suas, nua com outro cara. A estúpida deixou que seu celular fizesse backup dos dados para o armazenamento na nuvem. Fiquei puto da vida, queria esganá-la, mas preferi ficar calado. Baixei o anexo do seu e-mail, salvei o arquivo em seu computador e fechei a pasta. Uma semana depois, avisei que estava indo embora. Ela me perguntou o motivo, disse-lhe que os fatos eram fatos, e que não sentia necessidade, nenhuma, de verbalizá-los para ela. Mesmo assim contei-lhe que havia encontrado as fotos em seu e-mail e que iria, simplesmente, arrumar minhas coisas e ir embora. Foi exatamente o que fiz. No entanto, estava agora com o celular na mão, e uma notificação com seu nome no visor.

Deletei.

Sobre

Alguns podem criticar, mas os textos que posto, até o momento, não são editados, muito menos revisados. Não sou escritor, não sou aspirante, nem me intitularia como tal, também não tenho um “português correto”. Os contos e demais textos são, em parte, biográficos.  Não se precipitem querendo imaginar onde (talvez nem eu saiba, vocês entendem).
Seria um prazer receber alguma crítica ou dica.

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Atrasei

Acho que não concluirei o 2° capítulo do meu conto hoje. Motivos? Ah, que se danem os motivos. Essa semana concluirei, talvez post dois. Comecei bem. Não consigo nem seguir um cronograma, mas essa semana…

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Capítulo 1

Levanto-me uma, duas vezes. São três da manhã e não consigo dormir. Sentado na cama, me apoio com os cotovelos sobre os joelhos. Nenhum pensamento novo. Nada. Apenas as mesmas lembranças amargas do dia anterior, da semana anterior. Merda! O quanto é possível remoer o passado antes que se enlouqueça completamente? Ainda não tenho essa resposta. Aliás, ainda não tenho resposta para muitas outras coisas.

Semana passada brigamos. Sim, brigamos. Ao menos eu briguei. Fui para um hotel qualquer. Um quarto vagabundo, com paredes de cores mórbidas, e cheiro de mofo e cigarro. Tinha uma TV, é, tinha, e um banheiro. Tudo como tinha que ser, a não ser pelo ralo. Droga de ralo: quanto mais tentava não pensar em nada, lá estava ele, exalando aquele cheiro característico; me fazendo lembrar das bostas que havia falado e ouvido. Mas não era o primeiro ralo que tivera de enfrentar. Houveram outros antes dele, e também não seria o último.

 Voltei até a recepção.

– Boa tarde. – disse.

– Boa tarde, senhor! O que deseja? – respondeu a moça.

– O 320 é o melhor quarto que vocês têm disponível?

– Bem, é o único quarto de solteiro disponível no momento. Há algum problema com ele, senhor?

As pessoas sempre me soavam falsas quando tentavam ser educadas demais.

– Não. – respondi. – O problema sou eu. Obrigado.

 Sai da recepção e voltei ao elevador.

Enquanto subia, tentava imaginar o motivo para um hotel tão pequeno ter um elevador tão grande. Calculei que deveria ter capacidade para oito pessoas ali dentro.

A porta se abriu. Era o meu andar.

Segui pelo corredor até meu quarto. 320, dizia a placa praticamente ilegível pregada na porta. E, enquanto tentava abri-la, percebi o quanto sentia incomodo pela combinação daqueles dois primeiros números. Lembrava-me um filme que havia sido lançado em 2002: Número 23, era o título. Bem… é um filme que narra a obsessão de um cara pelo número 23, e que se torna paranoico por conta disso. Mas até o momento eu estava bem. É. Tudo bem, eu imaginava.

Ao entrar, deixei o cartão magnético no sensor, deitei-me na cama e apalpei a cabeceira à procura do controle remoto da TV. Troquei de canal, procurando uma merda qualquer para assistir. Aqueles filhos da puta. Não exibia nada além da programação local. Nessas horas papel e caneta sempre me faziam falta. Coloquei o celular para recarregar, deixei a TV ligada e permaneci deitado, tentando pensar em alguma coisa útil. Mas, pensar parecia ser a pior coisa que se podia fazer naquele momento.

O relógio marcava 22:00h.

Baixei um pouco o volume da TV e tentei me concentrar no barulho que vinha do quarto ao lado. Na verdade, não dava para ter certeza de onde saía, tampouco imaginar o que poderia ser: talvez alguém tentando suicídio, ou agonizando, quem sabe? Também poderia ser só um gato no cio do lado de fora da minha janela. Não dei muita importância. Afinal, se fosse alguma coisa importante estaria no noticiário local da manhã seguinte.